Quarta-feira, 27 de Setembro de 2006

Fobia escolar

 

Desde o final do século XIX, existem relatos de crianças que se recusavam a ir para a escola por motivos afectivos. Foi nos anos 30 que a investigação se apercebeu da existência de um grupo atípico entre as crianças que faltam às aulas. Estas crianças apresentam sinais de distúrbio emocional, expresso por preocupações fóbicas quanto à escola – quadro inicialmente definido por fobia escolar e hoje também conhecido como recusa escolar (“school refusal”) (Weidner, 1976). A recusa escolar ansiosa tem sido uma temática discutida e explorada com grande interesse desde então, tendo evoluído quer na sua nomenclatura, quer nas teorias explicativas da sua existência, quer no diagnóstico diferencial.

Apesar de inicialmente as crianças com fobia escolar terem sido confundidas com os absentistas, há diferenças consideráveis entre os dois grupos. Em primeiro lugar, porque uma criança com fobia escolar experiencia extrema ansiedade pelo facto de ter de ir às aulas, levando-os a regressar a casa, os absentistas geralmente não regressam a casa durante o tempo de aulas, não manifestam ansiedade por estarem na escola, fingem que vão às aulas. É também comum manifestarem sintomas psicossomáticos, ao contrário das crianças que faltam às aulas por outros motivos, cujos quadros não se caracterizam pela ansiedade. Do mesmo modo, raramente exibem comportamentos delinquentes e são crianças bem-comportadas, conscienciosas e perfeccionistas (Baideme, Kern & Taffel-Cohen, 1995).

       A frequência das fobias escolares será de 0,3 a 1,7 % para o conjunto da população em idade escolar. O rádio do sexo anda à volta de 3 rapazes para duas raparigas. A idade de início parece apresentar vários picos: na primeira infância (5-7 anos), na pré-adolescência (10-11 anos), na adolescência (12-15 anos).No entanto não é raro que a fobia escolar apareça no secundário ou à entrada da faculdade. A fobia escolar tem geralmente um factor precipitante, como um stress em famílias excessivamente próximas (e.g., divórcio dos pais, morte de familiar), mudança de casa ou escola ou uma doença que faz com que a criança deixe de ir às aulas por um período de tempo (Johnson, 1968).

O facto de a mudança de contexto não eliminar o problema demonstra que estamos perante um problema mais complexo. A entrada no 5º ano de escolaridade, e respectivas mudanças no sistema de ensino, tem um efeito simbólico marcado pela autonomia, diversidade de matérias e consequentemente de professores; são de referir também as ambições familiares, a competição escolar, etc. Não é de estranhar então, que a maior parte dos casos de fobia escolar se declarem na idade dos 10/11 anos.

De acordo com Kochenderfer & Ladd (1996) algumas crianças têm razões realistas para evitar a escola, tais como um professor sarcástico, sobrecarga de trabalho exigente ou um agressor no recreio. Neste caso seria crucial mudar o ambiente e não a criança.

    No entanto, alguns autores têm referido que as mães destas crianças têm frequentemente personalidades ansiosas ou mesmo fóbicas, sendo a ligação de hiperdependencia precoce mãe-criança habitual, o entanto nem sempre é possível saber quem iniciou essa ligação (neurose mútua de Estes e Haylett, 1956). Também é usual a ligação mãe fóbica – filha fóbica muito directa, não mediatizada por um pai com uma função debilitada. Neste tipo de triangulação familiar específico, a fobia escolar mostra que na criança mais nova, há um desabamento das suas possibilidades de identificação e consequentemente um desabamento do Ideal do Ego e do seu narcisismo (o refúgio numa posição passiva satisfaz a mãe e tranquiliza a criança gera-se deste modo um circulo vicioso). Sperling (1961; 1967) distingue fobia escolar aguda, posterior a um acontecimento traumático que representa para a criança uma ameaça às suas capacidades de controlo da realidade (vigilância constante); fobia escolar induzida, posterior a uma relação mãe-criança patológica (mãe agorafóbica); fobia escolar crónica (interferência das duas precedentes).

No adolescente, segundo Marcelli e Braconnier (1995), a fobia escolar tem proveniência numa ligação infantil de hiperdependência mãe-criança, estabelecendo-se em torno de falhas nos processos de identificação com o pai do mesmo sexo e da incapacidade da figura paterna se interpor na relação primária mãe-criança, actualizando-se sob o efeito de um duplo constrangimento das exigências de pensar na escola e dos conflitos de fidelidade ao grupo de colegas.

     A abordagem terapêutica (Marcelli e Braconnier, 1995) depende da fixação ou não do sintoma e da atitude de imposição que induz o reforço do sintoma: abordagem psicoterapêutica (perspectiva a longo prazo); abordagem familiar (situar a função simbólica paterna, nem sempre aceite pela família); hospitalização temporária (escola no hospital, integração num grupo terapêutico); antidepressivos tricíclicos (reacção depressiva associada à fobia escolar, particularmente nos adolescente)

 Fontes: Trabalho de Psicopatologia da criança e do adolescente realizado por Catarina F. Lopes, Clara V. Vieira, Daniela F. César, Francisco Pereira e Mª Laura C. Magalhães

 

 

 

 

publicado por danii às 22:24
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Ana Almeida a 28 de Setembro de 2006 às 22:04
Parabéns pelo Blog.
Iremos com certeza ter motivos para nos cruzarmos muitas vezes. Até breve
De Cremilde a 2 de Abril de 2008 às 23:05
alguem tem o numero de telefone de uma costureira pa mandar fazer um forro pos tomates do meu marido?

Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Julho 2007

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. Posts a caminho...

. “A criança que não queria...

. Insucesso escolar. A popu...

. Menores em Risco

. Avanços e praxis nas toxi...

. Fobia escolar

. Nunca desista dos seus so...

. Posts a publicar

. A Violência Doméstica: Co...

. The Beggining

.arquivos

. Julho 2007

. Março 2007

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

.tags

. Peço desculpa por alguns lapsos no post

. quando o escrevi inicialmente.o que se p

. todas as tags

.links

.PSI-Leituras

*Os Filhos da Droga-Christiane F. *O Sentimento de Si-António Damásio *Cem Anos de Solidão-Gabriel García Márquez

.counter

Magazine Subscription
Cingular Wireless
blogs SAPO

.subscrever feeds